Por Ajay Amlani
Vinte anos atrás, como cofundador e inventor da CLEAR, ajudei a implementar um dos primeiros programas biométricos para viajantes no Aeroporto Internacional de Orlando.
Na época, o conceito parecia quase futurista. A ideia de que o face ajudar a verificar a identidade de alguém e facilitar a passagem pelo aeroporto de forma mais eficiente parecia algo reservado à ficção científica.
Hoje, essa tecnologia existe e já deu provas de sua eficácia. No entanto, muitos dos sistemas com os quais milhões de viajantes se deparam diariamente ainda funcionam praticamente da mesma forma que há décadas. Isso é importante porque os Estados Unidos estão enfrentando um dos maiores desafios à sua infraestrutura de transporte e segurança da história moderna.
Nos próximos anos, os Estados Unidos receberão milhões de visitantes a mais para eventos como a Copa do Mundo da FIFA de 2026 e os Jogos Olímpicos de Verão de 2028. Esses eventos representam enormes oportunidades para o crescimento econômico, o turismo e o engajamento global.
Eles também levantam uma questão importante: estamos preparados para receber um volume sem precedentes de pessoas em nossos aeroportos, locais de eventos e sistemas de transporte, mantendo ao mesmo tempo a segurança e uma experiência positiva? A resposta não está simplesmente em contratar mais pessoal ou construir mais pontos de controle, mas em modernizar a forma como conquistamos a confiança das pessoas.
A identidade está se tornando uma infraestrutura
Quando a maioria das pessoas pensa em infraestrutura, pensa em estradas, pontes, aeroportos ou sistemas ferroviários. Cada vez mais, porém, a identidade digital está se tornando, por si só, uma forma de infraestrutura.
Todos os dias, os viajantes comprovam repetidamente quem são. Eles apresentam documentos de identidade, cartões de embarque, passaportes, reservas e credenciais em vários momentos ao longo da viagem. Cada interação gera atrito, atrasos e complexidade operacional. As tecnologias de identificação biométrica oferecem um modelo diferente.
Em vez de terem que apresentar documentos físicos repetidamente, os viajantes podem comprovar sua identidade de forma segura uma única vez e passar pelos pontos de controle subsequentes com maior eficiência e confiança. E os benefícios vão além da conveniência.
Para as operadoras, uma verificação de identidade mais rigorosa pode melhorar os resultados em termos de segurança, reduzir o congestionamento e tornar as operações mais previsíveis. Para os viajantes, isso pode diminuir a incerteza e a frustração. Para os governos, pode reforçar a confiança na integridade do sistema como um todo. Em outras palavras, a identidade não é apenas uma questão de segurança; é, cada vez mais, uma questão operacional.
O setor público não consegue resolver isso sozinho
Uma das maiores lições que aprendi ao longo da minha carreira é que a inovação significativa raramente ocorre de forma isolada. O ecossistema da aviação funciona porque órgãos governamentais, aeroportos, companhias aéreas, fornecedores de tecnologia e organizações do setor colaboram em torno de objetivos comuns. O mesmo princípio se aplica à modernização.
É compreensível que os órgãos públicos priorizem a segurança, a privacidade e a prestação de contas. As organizações do setor privado costumam agir com maior agilidade no desenvolvimento e na implantação de novas tecnologias. Os programas mais bem-sucedidos combinam esses pontos fortes.
Em todo o mundo, já vimos exemplos de colaboração público-privada que aceleram a implantação de soluções modernas de identidade, mantendo, ao mesmo tempo, padrões rigorosos de supervisão e segurança. Os Estados Unidos têm a oportunidade de fazer o mesmo. O objetivo não deve ser a privatização por si só, mas sim a criação de estruturas que permitam que a inovação avance no ritmo dos desafios atuais.
Segurança e experiência não são mais forças opostas
Durante anos, as organizações costumavam encarar a segurança e a experiência do usuário como prioridades conflitantes (e qualquer pessoa que já tenha ficado duas horas em uma fila de segurança entende o porquê). Mas as tecnologias modernas vêm comprovando cada vez mais que uma segurança aprimorada e experiências melhores podem se reforçar mutuamente. Quando a identidade pode ser verificada com mais precisão e eficiência, as organizações conseguem reduzir o atrito e, ao mesmo tempo, aumentar a confiança nos resultados. Esse princípio vai muito além da aviação.
Esse mesmo desafio se aplica aos serviços públicos, à gestão de fronteiras, às instituições financeiras, aos sistemas de saúde e a inúmeros outros setores em que é preciso estabelecer confiança de forma rápida e segura. As organizações que terão sucesso na próxima década serão aquelas que reconhecerem a segurança e a experiência como objetivos complementares, e não concorrentes.
Uma oportunidade única em uma geração
Grandes eventos costumam acelerar a inovação. A rede de rodovias interestaduais se expandiu em resposta às necessidades nacionais. Os aeroportos evoluíram acompanhando o crescimento da mobilidade global. Os serviços digitais se aceleraram durante a pandemia.
A Copa do Mundo e as Olimpíadas representam outro ponto de inflexão. Esses eventos geram urgência, concentram a atenção e unem as partes interessadas em torno de um desafio comum. Eles também oferecem uma oportunidade de desenvolver capacidades que continuarão agregando valor muito depois do término das cerimônias de encerramento.
A questão não é se as tecnologias existem. A questão é se temos a visão e a colaboração necessárias para implementá-las de forma eficaz.
Vinte anos depois de ter ajudado a lançar algumas das primeiras experiências biométricas para viajantes do setor, continuo otimista. O futuro da mobilidade não será definido apenas pela infraestrutura física. Ele será moldado pela eficácia com que combinarmos identidade confiável, tecnologia bem pensada e colaboração público-privada para criar experiências que sejam, ao mesmo tempo, mais seguras, mais rápidas e mais humanas.
Esse é um legado que vale a pena construir — não apenas para a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, mas para as décadas que se seguirão.